08/03/2018 14h51

Mulheres que fazem ciência

Dados e depoimentos comprovam o aumento do gênero feminino nas pesquisas científicas, apesar de dificuldades e machismo

 

O relatório Gender in The Global Research Landscape (Gênero no Cenário Global de Pesquisa), lançado em 2017 pela maior editora de literatura médica e científica do mundo, Elsevier, mostrou que a proporção de mulheres que publicam artigos científicos cresceu 11% no Brasil nos últimos 20 anos. Agora elas publicam quase a mesma quantidade que os pesquisadores homens (49%), ultrapassando países como França, Canadá e Reino Unido. No Espírito Santo não é diferente.

Nas pesquisas financiadas pelo Governo do Estado, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), os homens ainda são maioria na coordenação de projetos de pesquisas, mas a diferença é pouca – no total são 585 pesquisadores e 567 pesquisadoras com projetos apoiados pela Fapes.

Para a pesquisadora e professora Dra. em Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Raquel Frizzera Vassalo, o número de mulheres aumentou decorrente ao incentivo por meio de eventos e palestras motivacionais. “Os núcleos estão mais preocupados, e o que vejo é a realização de ações para que mais mulheres participem de espaços como o da ciência, onde a maioria dos homens é que dominam”, destacou.

Dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também mostram um aumento do ano de 1995 até 2016, com um crescimento de 13% de mulheres líderes de grupos de pesquisas vinculados ao Conselho, com uma diferença de 6%, 47% (mulheres) e 53% (homens).

Incentivo

Coordenadora de grupo de pesquisas e de diversos projetos, a professora Dra. em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e pesquisadora científica Maria Amélia Dalvi ingressou cedo na carreira, e, na época, sofreu com o machismo e a necessidade de conciliar a maternidade com os estudos.

Pensando nisso, hoje a professora realiza ações que incentivam a continuação das mulheres na vida acadêmica. “Nas reuniões do nosso grupo de pesquisa, as crianças são bem-vindas e nas minhas aulas as mulheres podem trazer seus filhos”, contou.

Na Fapes, as pesquisadoras podem tirar licença-maternidade durante a elaboração do projeto, e continuar recebendo bolsa durante e após a prorrogação do prazo de entrega da pesquisa, equivalente ao período de afastamento.

A diretora administrativa e financeira da Fapes, Maria Tereza Colnaghi, destacou que são necessários incentivos para que mais mulheres produzam artigos científicos, assim como ocupem cargos da categoria. “A mulher tem tripla função, e precisamos pensar também neste detalhe. Houve um aumento do gênero feminino porque cada vez mais há a necessidade de dependência financeira. A mulher é pró ativa, e a tendência é que cada vez mais nós busquemos espaço”, disse.

Multiplicidade

A professora Dra. em Biologia Adriana Madeira, de 50 anos, contou que assim que começou a ler e escrever decidiu se tornar cientista. “Fazer com que a humanidade seja ainda melhor do que é e pensar formas de trazer conforto para as pessoas que sofrem por alguma doença sempre foi o meu objetivo”, disse.

Apesar de nunca ter sofrido com o machismo, a cientista destacou que ser mulher e pesquisadora é, com certeza, bem mais difícil. “Não dá para ser pesquisadora se você não for múltipla. Temos que cuidar da casa, dos filhos, além de realizar nossos trabalhos. Na maioria das vezes, os homens pesquisadores são casados, e contam com o apoio feminino, e quando nós somos casadas, geralmente tais tarefas ficam conosco”, acrescentou Adriana.

Atualmente, a pesquisadora conta com diversas pesquisas financiadas pela Fapes e também pelo CNPq. Em um desses trabalhos, ela estuda sobre um câncer hereditário na região do Caparaó no estado do Espírito Santo, além de ter estudos voltados para a obesidade e a depressão, e o impacto do uso do agrotóxico para os moradores que também vivem na região. 

Ambiente machista

 “Atuar na área de engenharia, robótica e visão computacional como mulher não é tão simples”. Assim destaca a pesquisadora, professora Dra. em Engenharia Elétrica Raquel Frizzera Vassalo, coordenadora de projetos importantes como o “Carro Autônomo”, que ganhou destaque nacional.

O currículo extenso, recheado de grandes pesquisas, algumas vezes não é suficiente. “Essas áreas ainda são normalmente dominadas pela presença masculina e, infelizmente em alguns casos, ainda resultam em maiores exigências e críticas para as mulheres, assim como a expectativa de que nosso comportamento seja semelhante ao dos pesquisadores do sexo masculino. Mas, claro que há exceções”, destacou.

Durante a maternidade, a professora contou que teve que arcar com as consequências de ter boa parte das atividades reduzidas, diminuindo a produção científica. “Fiquei um bom tempo sem contar com um número de publicações suficientes para cumprir a meta esperada e, por exemplo, me manter como membro permanente do programa de pós-graduação ao qual pertenço. Por esse motivo, fui eliminada do programa. Desta forma, creio que, para os homens, o impacto da chegada dos filhos acaba por ser menor”, contou.

Maioria na I.C

No último levantamento realizado pela Divisão de Iniciação Científica, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG) da Ufes, no ano base 2016/2017, as mulheres são 59% do total de graduandos que participam de projetos de iniciação científica.

De acordo com o levantamento, 715 estudantes da Universidade estão no programa, sendo 419 do sexo feminino e 296 do sexo masculino. O centro de ensino onde elas são maioria, na verdade o quádruplo, em relação à participação masculina, é o Centro de Ciências da Saúde (CCS). Essa participação feminina na pesquisa na área da saúde é uma realidade em várias instituições nacionais e internacionais, de acordo com o relatório da maior editora de literatura médica e científica do mundo – Elsevier, divulgado em junho de 2017. Já o menor número está no Centro de Educação Física e Desportos. Confira na tabela abaixo o quantitativo por centro de ensino.

Informações à imprensa

Palloma Spala/ Fernanda Magalhães

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Texto: Palloma Spala com informações da Assessoria de Comunicação da Ufes

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